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28 de dezembro de 2011

Rabisco II

Mais um textinho que encontrei nos meus arquivos. Esse foi pra uma aula de produção de texto na faculdade, feito sem muito empenho. Mas crônica é pra ser algo leve, mesmo... e deixemos o moribundo blog suspirar!

Ponderando a respeito da existência da felicidade numa gostosa manhã de chuva, percebi que, antes, precisava saber o que é felicidade. É como querer saber se bolas quadradas existem - argumentei comigo mesma -, preciso saber primeiro o conceito de bola e o de ser quadrado. Achei o exemplo esdrúxulo, mas acabei por aceitá-lo.

Decidi, então, buscar uma resposta simples, pois ouvi dizer que isso diz mais que tese de doutorado. Perguntei à faxineira de minha casa:

- Dalva, para você, o que é felicidade?

Sem demora, ela me respondeu:

- É ter dinheiro ter condição de dar o sustento dos meninos...

- Mas Dalva, e aquelas pessoas riquíssimas e mesmo assim infelizes?

- Essas não sabem agradecer a Deus pelo que têm!

Fiquei pensando que talvez não fosse apenas ter dinheiro, mas trabalhar pelo dinheiro e, então, nesse caso, ter emprego seria fator essencial para chegar a essa felicidade endinheirada. Comentei com Dalva as minhas inferências "filosóficas";

- Felicidade é não ter que responder a pergunta complicada! - disse-me ela, cheia de sarcasmo.

E por longos cinco segundos pensei se não deveria mudar de curso universitário para, quem sabe, ser capaz de alcançar a tal felicidade: filosofia dando dinheiro e não respondendo pergunta complicada não faz parte do pacote. Descobri que prefiro fazer uma tese de doutorado sobre isso.

27 de janeiro de 2011

Rabisco

       Morena, moça de 18 anos, era branca mas tinha cabelo preto: sempre tinha que explicar. Ainda não era mulher porque nunca havia amado, argumentava, por isso digo moça. Conheceu José Aloízio em dezembro do ano anterior e o achou um homem distinto, tinha jeitão maduro, mal sabia ela que era moço também; já havia amado, é verdade, contudo era virgem, virgem.

25 de janeiro de 2011

Ódio semi-pornográfico


     Houve um dia que o homem com seu Cadillac comprou um sanduíche no drive-thru. Ficou pensando alto: porra, estamos no Brasil, deveria haver uma palavra ou expressão adequada que substituísse esse letreiro das lanchonetes... e de farmácias também, aparentemente. Sua namorada, cuja presença ele havia esquecido, lembrou-lhe que estavam num Cadillac e isso também era muito inadequado: deveriam estar numa Pajero, muito mais na moda. "Mas que mulher pentelha", pensou consigo o homem, ao que a mulher retrucou telepaticamente: cretino! Tão out. Tentaram se lembrar do porquê diabos estarem juntos, concluindo silenciosamente que ela era gostosa e ele... ela não lembrava porque estava com ele.

     De volta para casa, a mulher entregou-se ao colóquio mental sobre suas motivações afetivas para com aquele senhor. Aliás, havia afeição mesmo? Era cômodo, de algum modo, mas isto não era importante, o que ela queria saber naquele momento era por que ele, afinal poderia ser cômodo com vários outros menos idiotas. O idiota do Cadillac. Ora. Ligou-lhe e disse sem cerimônia que não conseguia descobrir a motivação para ser namorada dele, ao que ele retrucou afetadamente que não há razão na paixão dos enamorados. A mulher se irritou e o chamou de pinto-pequeno e falso, recebendo risadas em resposta, entre alguns vagabunda-de-merda e biscate-furada, até que tudo ficou mudo.

     Três semanas depois encontraram-se no show do Jota Quest, bêbados, treparam como dois animais na casa do amigo voyeur que lhes ofereceu carona e, pela manhã, ficaram a tentar lembrar por que diabos tinham rompido o relacionamento.

29 de setembro de 2006

Luz e Sombra

nota: o texto a seguir é fictício


A luz suave incide sobre a parede da cozinha, revelando uma mancha no relógio que, sem mais funcionar, marca eternamente duas horas e vinte e cinco minutos e, até que resolvesse consertá-lo, serve de enfeite naquele ambiente cuidadosamente desarrumado. É um dos presentes de casamento dos avós, ambos falecidos. Acha-o belo, gosta das coisas antigas, do entalhe na madeira. Agrada-lhe tanto o rebuscado quanto o moderno. A casa possui dois computadores, utensílios modernos, abajures fluorescentes. Mas estas coisas a luz nem a memória não revelam no momento. O que é a Internet, os jogos, a vida online, diante aquela luz que ilumina tranqüilamente aquele ambiente familiar? Uma luz, e o que não é luz é penumbra. Parece seu coração. E no coração não tem computador para distrair.

Levanta-se e pega uma flanela que descansa por cima da pia sem louças. Espirra um produto químico de odor irritante no tecido e põe-se a limpar o relógio. Uma mancha ínfima, nem faz muita diferença para os eventuais visitantes – estão mais preocupados em ver as horas de verdade e sempre acabam consultado seus celulares. A mancha não sai, então volta a peça para seu lugar anterior. A luz incide sobre uma mancha, que não sai, de um belo antigo relógio.

Quanto tempo ficara ali no sofá verde antes de perceber a mancha? Na boca, um gosto estranho, não há fome, talvez um pouco de sede. Tomara café da manhã , lembra disso. Lavou a louça também, coisa rara, costumava esperar que a encarregada lavasse, não tinha tempo, não tinha vontade, contratara alguém para lavar não só a louça, como a roupa e o chão também. A pessoa não veio, não era o seu dia [de vir]. Talvez não fosse o dia de ninguém. Então como foi parar no sofá, quanto tempo ficou, havia luz? Tudo que vê é a penumbra nas lembranças, a luz clareou sua mente no presente, como no presente iluminou a sua cozinha.

Sempre tem tantos pensamentos! Ao mesmo tempo, parece que nenhum, pois, como diz Schopenhauer, deve ter pensado muito pouco para ler tanto. Então não é sempre, talvez metade do tempo de cada dia. Uma parte, desperta, não pensa, só lê, escreve, fala e reproduz atos. Na outra, dorme, e então consegue pensar. Mas não lembra depois, não quer lembrar, faz de conta que não lembra, lembra e sofre, às vezes ri. Se você aceita o riso, aceita o choro também. O discutivelmente bom e velho tudo ou nada.

Hoje não é dia de tragédia, não é dia de choro, nem de riso, hoje não é dia de nada. Tem um sofá, uma luz, mancha e relógio. Uma incógnita também há, mas não recorda nada, não quer recordar, faz de conta que não recorda, não! Não há nada para recordar. Pensa, agora, no presente, às vezes no futuro; sente a sede e decide pegar um copo com água. Entretanto, quando a sede se for, o que fará?