28 de agosto de 2009

Da Imbecilidade Humana


Há um certo hábito em Natal, uma atitude realmente freqüente, que é de falar mal da cidade, da cultura, das pessoas, e culpar qualquer merda que acontece pelo simples fato de acontecer em Natal.

Exemplo I:

- Oh my God, um pombo cagou na minha blusa! Só podia ser em Natal, odeio essa cidade! Grr.

Exemplo II:

- uááá, o Flamengo perdeu! Culpa dessa cidade bosta, Natal é um cuuuu. (??)

Assim como na Polishop, não é só isso. Ao contrário de cidades pernambucanas, a cultura nordestina é quase totalmente rejeitada pelos famosos pseudointelectuais potiguares. Pra mim, francamente, há uma diferença gigante entre ser culto e ser cult. Ser cult é cool, é fazer de conta que é made in England e recusar qualquer bem cultural que se refira à própria terra. Contrastando com isso, tem as pessoas mais humildes, as quais normalmente não têm acesso a bens culturais sejam locais ou internacionais, muitas vezes se contentam em ouvir músicas de qualidade baixa e extremamente acessíveis. Tem também um terceiro grupo, das pessoas mais bem de vida que insistem em se limitar a ouvir essas músicas tacanhas, independente do estilo. O tipo de música vai variar de local para local. Como por acaso estamos no Nordeste, o estilo musical mais comum é o forró, seguido do axé music.

Em última instância, aqueles que dependem da mídia não são necessariamente burros. Já foi comprovado cientificamente que as pessoas aprendem a gostar de músicas diferentes, é questão de costume (fonte). É comprovado também que o ser humano se acomoda. Tem gente que se acomoda com heavy metal ultra-mega-advanced bem trabalhado e não ouve mais porra nenhuma na vida: FAIL. Tem gente que se acostuma com Saia Rodada e seu maior hit, do sísifo nordestino - beber, cair, levantar! - e não faz questão de algo muito diferente.

Mudei totalmente minha perspectiva depois de conhecer melhor (ui!) minha faxineira. Outro dia mesmo ela estava ouvindo insistentemente um bregão horrível, o instrumental só devia ter duas notas. Acontece que Neide é fã de Raul Seixas e passa horas diárias ouvindo as músicas lentas do X Japan. Outro dia ela pediu pra passar pro celular dela várias músicas (umas bem bonitas) que ela ouviu aqui em casa, cantorolou uns lalalás e eu encontrei algumas. Neide é analfabeta. É um produto do seu meio, mas também tem personalidade própria; muito embora ela não saia por aí com camiseta do Raul, nem falando sobre os artistas "MARA" que ela escuta.

Mas então, "forró é coisa de pobre na carteira e no espírito", dizem. Provavelmente estes seres nunca ouviram a Saga de um vaqueiro, do grupo Catuaba com Amendoim, antes de fazer uma afirmação babaca dessas. Seus All Star e seus óculos wayfarer não merecem tamanha manifestação nordestina. Porque, né...? Ser nordestino é tãaao porteiro style!

A novidade, meus leitores, é que ser pobre por si só não torna ninguém inferior em sentidos além do extritamente monetário. E quanto ao espírito, quem é você pra dizer isso? Se essa pessoa curte rock, vou colocar umas certas bandas ridículas pra ela ouvir. Quero ver ela generalizar e dizer que rock é um cu. Quero ver!

Pode até existir "indies" que reconhecem músicas boas entre os estilos regionais. Estes talvez não façam questão de ficar falando do que gostam de ouvir além do que o grupo social deles exige, assim como Neide, mas eu acho que não conheci nenhum. Só ouço os imbecis, mesmo.

Voltando às pessoas estritamente de Natal. Ah sim, elas falam mal de tudo. Daí hoje eu me rendi e vou seguir a manifestação cultural local que consiste em falar mal da cidade, da cultura (que cultura?), das pessoas... principalmente das pessoas. Ô gentinha!

Eis que eu estou caminhando tranqüilamente pela Av. Abel Cabral após comprar molho de tomate na conveniência de um posto de gasolina. É uma rua de mão dupla e tem canteiros separando as direções. Eu olho para esquerda e não vem nenhum carro, ô beleza! Até ando devagar. Quando estou na metade do caminho da primeira mão, ouço buzinas e o barulho de carro acelerando; olho com a visão periférica para a esquerda e, novamente, nenhum carro! Mas olha só que legal, vem um destrambelhando pela direita - na contra-mão, obviamente - com sede de sangue. Eu fiquei tão assustada que não sabia se ia pra trás ou pra frente: fiz os dois. O cara freia já faltando um milímetro pra encostar na minha perna, eu dou um passo pra trás e levanto os braços com a maior cara de interrogação que eu consigo fazer, porque falar que é bom não sai nada além de "q-q-que..."

O mais interessante de tudo é a reação do homem. Sabem qual foi?

Nenhuma.

Um homem num carro esporte desses chiques, sério e compenetrado, olhando para frente. Parecia que eu era invisível. Ou que ele estava certíssimo e, para não arranjar briga, ele ia fazer a bondade de não me xingar. Como eu pude ousar caminhar à frente de seu Crossfox ou similar, naquele momento tão único em que ele manobrava na contra-mão?

Nem pra pedir desculpas!! Caralho!!!! Ele nem olhou pra minha cara!!!!

Tenho certeza que ele só parou porque se tocou que levaria um processo por atropelar estando na mão errada. Isto é, se ele não me atropelasse e me deixasse agonizando na rua, só. O mais ridículo é que ele não foi pra outra mão para entrar numa rua do lado de lá, pois no fim ele voltou pra via da direção certa. E eu fiquei lá, estirando o dedo, gritando feito uma louca (meio atrasada) sobre o quanto ele era imbecil.

Se o ódio me consumia no começo desse texto, agora só ficou a tristeza e sensação de ter o meu espírito local esmagado, estraçalhado. Eu vejo meu funeral, minha mãe chorando, komm susser tod tocando. Sério, eu vi a morte de perto e disse pra mim mesma: é agora!

Não foi. Amém!

E o que meu quase atropelamento tem a ver com forró? Ah, cara, sei lá. Na minha cabeça estava tudo interligado, porém faz muito tempo que eu não escrevo nem meu nome e minha cabeça está instável demais para que eu possa organizar o texto. Eu só queria desabafar. Liguem os pontos, vocês aí.

Blogged with the Flock Browser

13 de novembro de 2008

Lembranças da Redinha e da Rua Apodi

Estou chegando naquela idade em que as pessoas próximas começam a morrer.
Ano passado foi-se minha tia mais velha, por parte de pai.
Este ano foi-se meu tio mais velho, por parte de mãe.

Tia Lúcia morreu enquanto fazia uma transfusão de sangue. Parece que tinha um problema renal e que é bastante perigoso fazer essas transfusões pela probabilidade de ter um ataque cardíaco. Foi o que aconteceu.

Tio Diniz saiu de sua casa na Redinha (uma praia urbana de Natal) para comprar um material de construção que faltou, fez um retorno na estrada e o veículo do BOPE, que estava em alta velocidade por atender um chamado, bateu nele. Tio morreu na hora.

Foto: Jornal de Hoje


Olhem que retorno ridículo. Ele não viu a viatura e a viatura não o viu por causa das plantas do canteiro.

Lembrei-me de todas as vezes que quase morri, que quase minha mãe bateu o carro, todos os quase acidentes terríveis que evitamos. De repente ele faz o retorno e não teve tempo de voltar, do Bope desviar... foi em cheio. Era a hora dele.

Eu espero sinceramente que toda a visibilidade esse acidente teve por causa do meu tio (ele é uma figura pública) sirva de catalizador para o governo se mexer, quantos pedestres ainda terão de ser atropelados, quantos acidentes de carros, quantas mortes ainda terão que acontecer para arrumarem o trânsito da Zona Norte?

Foto: NoMinuto.com


A família está em choque, afinal se alguém fica doente todos se preparam, um acidente de supetão deixa qualquer um dormente. Tio Diniz era muito apegado a família e servia de elo entre os irmãos e a família da minha avó, tias, primos e descendentes.

Eu não me dava bem com ele, nós brigamos feio quando eu tinha uns 16 anos e nunca mais fui na casa dele, a Redinha da minha infância, das minhas lembranças, a minha formação. Cresci vendo os quadros dele, veraneando na sua casa, recebendo ensinamentos de etiqueta hilários. Todos os primos também, ninguém esquece o "cadê Zazá" (quando utilizavam os talheres abrindo os cotovelos em asa), "olha o tubarão" (quando levantavam o dedinho para beber no copo) , "vai voaaar" (quando seguravam a xícara levantando o cotovelo)... era o grande incentivador cultural da família, e logo eu que sou a mais "culta" era a mais chata, para ele.

Depois de alguns anos, passamos a tolerar a presença um do outro nas festas e encontros de família, no último anos ele falou várias vezes para mainha que queria se aproximar de mim, mas nunca me tratava bem quando nos encontrávamos.

É claro que eu estou triste, pela primeira vez chorei num velório e senti de verdade a perda (por morte) de alguém. Ele era família próxima, e apesar de eu não vê-lo com freqüência, ele estava sempre por perto, minha mãe costumava vê-lo toda semana em almoços dos irmãos, na casa da minha tia, falava sempre por telefone e na internet, ou seja, eu sempre tinha notícia, além dos livros que vez ou outra ele me mandava para mim.

Além disso, eu o tinha no Orkut que dedico só para familiares e sempre recebia mensagens dele para as pessoas de sua lista com programações culturais, poemas e reportagens.

Ano passado, depois de muitos anos, passei o Natal com a família, incluindo-o. Foi muito legal e engraçado, até tenho boas lembranças recentes dele.

Minha mãe quer que eu escreva um discurso (pediu que eu lesse também, mas eu já me recusei) para a missa de 7º dia e eu não sei se serei capaz de fazer. Eu gosto do meu tio, mas eu sinto que seria uma hipocrisia muito grande, até porque todos esperariam apenas coisas boas sobre ele. Eu não poderia fazer isso, primeiro porque eu sempre reconheço os defeitos de todas as pessoas próximas e não poderia agir como se ele fosse só coisas boas. Tio Diniz era uma artista excelente e uma pessoa muito espirituosa, alegre e engraçada, mas também podia ser muito cruel. Ele me magoou muito e as palavras que ele disse na última briga que tivemos foram por muito tempo uma ferida e trauma para mim. Em todos os momentos de depressão eu lembrava das palavras dele. Eu não poderia enfeitar um discurso. (Na foto, Diniz Grilo e minha mãe, Amélia)

Cada um tem a sua dor, alguns choram, gritam, outros ficam parecendo um zumbi. Eu não queria que ele fosse embora, não queria que a família perdesse uma "perna". Eu não sei e ninguém sabe como vão ficar as coisas, os encontros, os almoços...

Uma coisa é certa, família é bicho estranho. Não importa as desavenças, na hora da dor todo mundo se une. Meus primos brigados nos EUA se reconciliaram, meus tios se aproximaram, minha prima que era odiosa há alguns anos deu muito apoio às tias. Minha tia até ficou fazendo carinho na minha mão, contato que não tínhamos há pelo menos dez anos... Fica o desejo de que essa situação dê perspectiva para não se cometer os mesmos erros, para não ter que se unir só quando morre alguém.

Depois de quase seis anos voltarei à Redinha. Vou ver os quadros que ele estava terminando para a exposição que teria no fim do mês, como ficou a reforma da casa... Meus tios me deram os livros e discos dele, como era seu desejo. Acho que vamos fazer um inventário dos quadros também, para uma futura exposição.

Apesar de todo o sofrimento, todo mundo pensou e riu um pouco, pois que só faltava ele mesmo aparecer no velório e no enterro dele e fazer comentários sobre os modos das pessoas, dos jornalistas, das roupas, dos "falsos". Minha mãe praticamente foi única da família que teve condições de dar as entrevistas, nos disse depois que só no que pensava enquanto falava com os jornalista era nele dizendo "olhe, eu sou uma figura pública! No meu funeral não vão dizer nada 'maracatu'"...

Algumas reportagens que saíram:

Tribuna do Norte I, Tribuna do Norte II

Diário de Natal I, Diário de Natal II, Diário de Natal III

Jornal de Hoje I, Jornal de Hoje II

No Minuto I, No Minuto II, No Minuto III, No Minuto IV

DN Online I, DN Online II, DN Online III, DN Online IV